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Um dia assim

Dou por mim a pensar que os dias felizes são os que tornam a saudade fácil. Quando alcançamos o objectivo pelo qual nos esforçámos tanto. Quando recebemos a notícia que nos deixa um sorriso estampado no rosto. Ou simplesmente quando reunimos ao nosso redor os familiares e amigos que desempenham na nossa vida o papel de trave mestra. Não há como não olhar para trás e recordar com alegria e saudade esses momentos. Penso depois nos dias menos bons. Quando acontece algo inesperado que nos tira do sério. Quando nos zangamos com alguém de quem gostamos por qualquer insignificância da qual já não nos recordamos no dia seguinte. Ou quando chegamos a casa cansados do trabalho e saturados de aturar gente idiota e sem o mínimo de inteligência. São esses dia menos agradáveis, dias sem interesse e de fácil esquecimento que me fazem questionar: Será que em algum momento vou ter saudades de um dia assim? A pergunta só pode ser respondida se olharmos á nossa volta e observarmos a riqueza que nos rodeia, Seja o beijo de uma avó, ou o sorriso de um irmão. Seja o carinho de uma mãe ou o apoio incondicional de um pai. Sejam os braços abertos, da pessoa que nos ama, á nossa espera para nos agarrar e confortar. Seja mesmo até a recepção calorosa do nosso cão quando chegamos a casa, ou o toque gentil do nosso gato quando o aconchegamos no nosso colo. Seja o que for, é algo que está sempre presente, mesmo nos dias menos bons.
Nada do que nos faz felizes é guarantido, e no entanto, qualquer dia mau nos faz esquecer da riqueza que temos e á qual tão pouco valor damos.
Quando se sentarem no sofá a lamentar o péssimo dia que tiveram, olhem em redor e pensem: Será que ainda vou ter saudades de um dia assim?

Mundo Meu

Eu podia mudar o mundo com as minhas próprias mãos. No estado em que se encontra não seria uma má ideia. Uma mudança seria boa e eu tenho boas ideias para este mundo perdido. Há apenas um problema, uma questão, uma razão que me impede de realizar uma tal tarefa de proporções bíblicas. Não é a falta de vontade, nem de força, nem de força de vontade, pois tudo isso eu tenho de sobra. A única razão que me detém prende-se com o facto de, no final de tão grande e penoso labor, as minhas mãos ficarem ásperas, tão intocáveis como qualquer cacto num qualquer deserto árido e seco. Com que mãos iria eu tocar-te depois? Mãos secas e frias como uma rocha rude e dura? Como poderia eu sentir-te se todo o meu esforço de mudança das coisas complexas e complicadas me tirou todo o sentido de tacto para as coisas simples como o calor da tua pele macia.
O mundo está mal, é certo. É necessária uma mudança e é urgente que tal aconteça, mas o Meu Mundo também requer atenção. O Meu Mundo requer carinho e amor para que a felicidade se espelhe nele. O Meu Mundo és tu.
O mundo está mal e precisa de mundaça mas o mundo pode esperar. Quem queria um mundo melhor que me desculpe, eu não vou melhorá-lo já. Vou primeiro tratar de ti, do Meu Mundo. Se cada um tratar do Seu Mundo então decerto todos teremos um Mundo melhor.

Se de Rudyard Kipling (tradução de Félix Bermudes)

Se podes conservar o teu bom senso e a calma
No mundo a delirar para quem o louco és tu...
Se podes crer em ti com toda a força de alma
Quando ninguém te crê...Se vais faminto e nu,
Trilhando sem revolta um rumo solitário...
Se à torva intolerância, à negra incompreensão,
Tu podes responder subindo o teu calvário
Com lágrimas de amor e bênçãos de perdão...

Se podes dizer bem de quem te calunia...
Se dás ternura em troca aos que te dão rancor
(Mas sem a afectação de um santo que oficia
Nem pretensões de sábio a dar lições de amor)...
Se podes esperar sem fatigar a esperança...
Sonhar, mas conservar-te acima do teu sonho...
Fazer do pensamento um arco de aliança
Entre o clarão do inferno e a luz do céu risonho...

Se podes encarar com indiferença igual
O triunfo e a derrota, eternos impostores...
Se podes ver o bem oculto em todo o mal
E resignar sorrindo o amor dos teus amores...
Se podes resistir à raiva e à vergonha
De ver envenenar as frases que disseste
E que um velhaco emprega eivadas de peçonha
Com falsas intenções que tu jamais lhes deste...

Se podes ver por terra as obras que fizeste,
Vaiadas por malsins, desorientando o povo,
E sem dizeres palavra, e sem um termo agreste,
Voltares ao princípio, a construir de novo...
Se puderes obrigar o coração e os músculos
A renovar um esforço há muito vacilante,
Quando no teu corpo, já afogado em crepúsculos,
Só exista a vontade a comandar avante...

Se, vivendo entre o povo, és virtuoso e nobre...
Se, vivendo entre os reis, conservas a humildade...
Se inimigo ou amigo, o poderoso e o pobre
São iguais para ti à luz da eternidade...
Se quem conta contigo encontra mais que a conta...
Se podes empregar os sessenta segundos
Do minuto que passa em obra de tal monta
Que o minuto se espraia em séculos fecundos...


Então, ó ser sublime, o mundo inteiro é teu!
Já dominaste os reis, os tempos, os espaços!...
Mas, ainda para além, um novo sol rompeu,
Abrindo o infinito ao rumo dos teus passos.
Pairando numa esfera acima deste plano,
Sem receares jamais que os erros te retomem,
Quando já nada houver em ti que seja humano,
Alegra-te, meu filho, então serás um homem!...

Reciprocidade

Como seria se tudo fosse diferente?
Um mundo vazio de gente,
Um mundo alegre e contente.
Como seria se nada fosse igual?
Se a bondade fosse banal,
Sem causar dor fisica ou mental.
Como seria se fosses tu e não eu,
Se tivesses o que é meu
E me desses o que é teu?
Se visses pelos meus olhos
Tudo o que eu já vi,
Vivesses o que eu vivi,
Sofresses o que eu já sofri.

Se deres sem receber e receberes sem pedir, fechas-te um ciclo onde poucos entram mas de onde ninguém quer sair.

Silêncio

Silêncio é raro, simbólico,
amigo omnipresente,
companheiro no ruído
criado fora da minha mente.
Sensível, sincero,
nunca aponta o dedo,
recosta-se no meu ombro
encobre todo o meu medo.
Sem palavra ele diz tudo,
sem gesto abre o caminho,
sem estar perto nem longe
não me deixa estar sozinho.
Se estás aí sei que me escutas,
Sei que sabes onde estou
eu também te ouço...
...shhiu...o Silêncio falou...
.............................................
...Quando o Mundo se cala
o Silêncio fala...
...e mesmo que não entendas....
..se escutares talvez aprendas...

Equilíbrium

Nos dois lados da balança,
Nos dois extremos do horizonte,
Morte na ponta de uma chama
Vida na água de uma fonte.
Paralelos, paradoxos,
Opostos sem conexão,
Pontas soltas da mesma linha
Que não têm ligação.
Não há verdade sem mentira
Nem noite sem haver dia,
Se o bem não existisse
O mal não existiria.
Não haveria prazer
Se algures não houvesse dor,
Se não soubéssemos sofrer
Jamais daríamos amor.

Os opostos não se reflectem
Não se tocam, não chegam perto,
Mas não existem um sem o outro
Pois nenhum estaria completo.
A Lei que rege a perfeição,
É imperfeita, desafinada:
Do nada se cria tudo
E tudo se torna em nada.

Nos dois lados da balança
Dois pesos presos por um fio
Balanceiam inconstantes
Procurando o Equilíbrio.
Nunca estaremos sempre bem
E nem sempre estamos mal,
Olhando duas vezes o céu
Não o veremos igual.
A linha que define a vida
É mutável, insegura,
Se há algo que nos ensina
É que nem a própria vida dura.
Olha para trás, vê os altos
E baixos que a linha tem,
Se o Equilíbrio reinar
Alegra-te, vives-te bem.

Mãe

De sol a sol sem descanso,
Sem queixas ou lamentos,
Sozinha, sem companhia,
Somente os seus pensamentos.
Altruísta sem rancores,
Jamais conta o quanto dá.
Esconde as lágrimas e dores
Mostra-as quando ninguém está.
Eu sei que choras, eu sei,
Eu sei que sofres e não dizes.
Eu vejo a tua felicidade
Apenas por nos veres felizes.
Sei da dor, sei do amor,
E das noites sem dormir.
Sei do fardo que carregas
Mas que não podes dividir.
Eu sei o quanto me amas
E quero que saibas também,
Que te amo, te admiro,
Que és o meu orgulho Mãe!
Nunca direi que compreendo
Toda a preocupação,
Quando queres os teus filhos
E não sabes onde estão.
É um amor só teu,
Só tu o podes sentir,
Só tu choras quando eu choro
E sorris quando me vês sorrir.
Só tu sabes a dor que sentes
Quando o nosso coração dói,
As rugas que tens no rosto
Provam que ela não mata mas mói.
Não penses que não te ouço
Quando julgas que não ligo,
Os conselhos que me dás
Carrego-os sempre comigo,
E estás no meu peito,
Não importa para onde ele vai.
Nunca esquecerei o que me ensinas...
...Um dia também serei Pai.
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